17.11.09

Entrincheiramento pela contra-hegemonia


Aqui de longe, interessei-me por um dos lançamentos da 55° Feira do Livro de Porto Alegre (RS), encerrada no último final de semana. O compêndio “Mídia e Identidade Gaúcha” (Edunisc, 2009) promete voltar os holofotes para um aspecto determinante no entendimento da cultura sulina contemporânea.

O livro reúne trabalhos que discutem a forma como a mídia constrói a identidade gauchesca.

Os professores Ângela Felippi (UNISC) e Vitor Necchi (PUCRS) organizaram o volume com textos de doze pesquisadores, de diversas universidades. São reflexões sobre a identidade hegemônica nos meios de comunicação do Rio Grande do Sul.

Não irei me aprofundar no tema em questão, pois ainda não li o livro. Mas sendo otimista, espero que seja um marco importante na legitimação de um viés mais crítico sobre a cultura do estado.

É no mínimo um alento na contra-hegemonia das cartilhas tradicionalistas, ao menos nos meios acadêmicos.

“Mídia e Identidade Gaúcha” está disponível no site da Edunisc.

7.10.09

Para intercambiar no talo!


A internet é um instrumento que conduz a novas socializações, mas que ao mesmo tempo serve de suporte a velhas relações. Maior sinal de que a comunicação primária determina a rede virtual está no novo site de relacionamentos: http://www.folklorear.com/

Assim como Orkut e Facebook, cada usuário cria um perfil através do qual se liga a outras pessoas. A diferença talvez esteja no interesse que leva os internautas a aderirem ao Folklorear. O motivo é a participação em um meio em que transitam artistas e amantes de música latino-americana em suas múltiplas vertentes.

Criei meu perfil há dois meses e pude conhecer muitos músicos argentinos, uruguaios, entre outros, que nunca havia ouvido e que precisava conhecer para me atualizar com o que de mais vanguardista se está fazendo na América Latina afora.

No Folklorear, podemos postar vídeos, músicas e textos. Logo na página inicial, escutamos e vemos trabalhos de membros da rede, com muita facilidade. Entre entrevistas inéditas com León Gieco e videoclipes antigos para homenagear Mercedes Sosa, recém falecida, garimpa-se áudio de nomes menos conhecidos como Nicolás Falcoff, excelente cancioneiro.



Fiquei pasmo em descobrir a virtualização de um intercâmbio de longa data. A música latino-americana sempre foi marcada pela troca de acentos e pelo compartir similitudes. Somos países de histórias gêmeas bi vitelinas, de opressão política nas décadas de 60 e 70 do século XX, e de raízes africanas, iberos e indígenas. Solidarizamo-nos e saudamos nossas peculiaridades há anos, com o pé nas referências sedimentadas e o olho nas revoluções (sejam ideológicas ou tecnológicas).

A apocalípticos e integrados, advirto:- Pasmem! A revolução cultural encontrou lugar na revolução tecnológica!

2.10.09

A um passo de qualquer lugar

Musicalmente, a vida é uma sucessão de peças de andamentos sortidos, categorizadas em prelúdios, concertos, fugas, e o que mais couber entre a arte e a tradução dos dias.

Em que clave andamos, ponteando semifusas ou glissando semibreves, só sabemos quando uma melodia sintetiza momentaneamente, talvez letrada, o que guardamos íntimo.

E há apoteose maior que externarmos a síntese precisa da emoção?

Às vezes o disco risca, pra nos prender num compasso gago.

Noutras, ouvimos uma canção reminiscente que nos impregna até as narinas de passado.

O nirvana é compor uma canção pra criar asas que num belo dia irão pousar de volta em nossa janela, ressonando a verdade, re-arranjada.

É o que sinto hoje em relação à música “A um passo de qualquer lugar”. Trata-se de uma parceria com o amigo Eliézer Machado Aires (ator de uma sensibilidade orquestral, continuamente surpreendente - mesmo aos ouvidos conhecidos).

A inspiração foi a cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, onde morávamos e iríamos encenar um musical regionalista com pretensões de vanguarda, em 2005 (Passo Contemporâneo - Do Fundo do Quintal do País).

Hoje vivendo em Brasília, surpreendi-me assoviando suas notas e entendendo o que faço no mundo, no compasso que soa.


A um passo de qualquer lugar
(Eliézer Machado Aires/João Vicente Ribas)

Passagem pra chegar onde se quer
Parada de corações ciganos
Aqui, chega gente de qualquer lugar
Daqui vou pra onde a rosa apontar

Passo fundo na memória
Minha paixão
Achei razões neste caminho
Algum motivo pra ficar
Ou pra partir
O nosso amor é teatino

A um passo de encontrar alguém
A um passo de me apaixonar
A um passo de qualquer lugar.

21.9.09

20 de setembro

Já passou, já passou...

17.9.09

Saudades do rincão

Fico sensibilizado nesta época, em que a Semana Farroupilha se estende por todo o sul do Brasil e não respinga uma gota de seus temporais intermináveis aqui no centro do país. Quedo-me seco, sem ouvir uma acordeona gritona que vare a madrugada, ou uma criança que declame afoita com voz pequena e empostada com a ajuda dos braços de gesticulação ensaiada.

É estranho passar em branco o mês de setembro no quesito bagualice. Aqui de Brasília, tento aguçar os sentidos para sentir algum cheiro de bosta de cavalo, em vão. O que consola é lembrar que o espírito farrapo nos acompanha onde se ande, apesar da falta do circo para desempenhá-lo.

Entonces, ligarei meu laptop pra baixar uma vanera na mula virtual, obrigando os vizinhos da quitenete a cultivarem a tradição musical. Vestirei alpargatas pra andar no asfalto e bombachas novas pra brigar na portaria de algum tribunal. Também fincarei um espeto, pra ensinar o povo a assar carne como manda a cartilha, no canteiro do Eixo Monumental.

Findo o domingo e passado o lapso de gauchismo, voltarei apenas a tomar chimarrão e a falar tu, para vocês.

24.7.09

Luiz Sérgio Metz, o Jacaré

Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo (RS) no dia 3 de junho de 1952. Criou-se na cidade natal, estudou Comunicação Social em Santa Maria e viveu sua carreira profissional em Porto Alegre. Foi escritor, jornalista e letrista do grupo Tambo do Bando. Jacaré, como era conhecido, morreu de câncer em 20 de junho de 1996, há 13 anos. Mas o intuito deste texto supera o necrológico, pois há muito o cito em outros artigos, além da epígrafe deste blog, postada ao lado.

Seu colega de trabalho na Secretaria de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, onde trabalhou até os últimos dias de vida, Luís Augusto Fischer, define-o:
“Ele próprio era uma síntese. Filho de pai descendente de colonos alemães e de mãe de colonos italianos, se criou nos arrabaldes de Santo Ângelo, coração das Missões, viveu como guri entre a cidade e o campo, foi cavalariano no Exército, cruzou com índios e castelhanos, conheceu o Sul profundo da vida estancieira, cursou a Universidade, foi jornalista, pai de filhos, pós-graduou-se em literatura, amou, viveu rápido, escreveu, fez amigos para toda a eternidade.” (Zero Hora, 29 de junho de 1996)

Com os amigos Vinícius Brum, Aparício Silva Rillo, Pedro Luiz Osório e Nelson Ribas, no festival da Barranca, em São Borja.

Luiz Sérgio Metz era leitor de Marllamé, Eliot, Otto, Borges, Aparício Silva Rillo e do realismo mágico dos latino-americanos. Dentro de seu universo musical, estão nomes como Jorge Cafrune e Bob Dylan. O trabalho musical do poeta desenvolveu-se basicamente com o grupo Tambo do Bando e o cantor nativista Luiz Carlos Borges, chegando a ser um dos mais reputados letristas do circuito nativista, com prêmios em vários festivais do Rio Grande do Sul.

Livros
Em seu último ano de vida, foi colaborador da coluna Regionalismo do caderno Cultura de Zero Hora, ao lado de Barbosa Lessa e Carlos Reverbel. Trabalhou na Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre e lá deixou incompleto um livro sobre a história da Usina do Gasômetro (publicado postumamente em co-autoria com Fischer).

Sérgio Jacaré lançou em vida três livros. O compêndio de contos O Primeiro e o Segundo Homem (Martins Livreiro, 1981), a biografia de Aureliano de Figueiredo Pinto (Tchê, 1986) e o romance Assim na Terra (Artes & Ofícios, 1995). Esse último, segundo Luís Augusto Fischer, é “uma das 10 mais importantes obras de ficção do Rio Grande do Sul de todos os tempos e certamente uma das 10 melhores coisas escritas no país na última década” (Zero Hora, 29 de junho de 1996).
Também postumamente, teve publicado o volume “Terra a dentro”, relato de uma viagem a cavalo pelo interior do estado, ao lado dos amigos Pedro Luiz Osório e Tau Golin.
Tambo do Bando: Marcelo Lehmann, Texo Cabral, Beto Bollo, Vinícius Brum, Jacaré e Leandro Cachoeira.

Certa vez, Jacaré explicou sua vocação para a polêmica e acabou elucidando seu perfil como ninguém mais poderia fazê-lo:

“Por natureza, por essência, por definição e postura o artista é um cidadão incomum e iluminante. Deriva de sua agudíssima sensibilidade esse posicionamento diferenciado. O artista é, na prática, difícil de reunir, impossível de redomonear, instável de conviver; enxerga os absurdos antes dos demais, sente as transformações sociais primeiro e privilegiadamente e isso, não raro, o coloca em permanente estado de alarme e angústia. Expressa-se de forma precisa sobre seu tempo e, por dialogar através de imagens, símbolos e metáforas – que são sínteses transformadas e transformadoras da realidade, às vezes é chamado de ‘absurdo’, ‘hermético’ e, ainda pejorativamente, de ‘visionário’, ‘complexo’, ‘obscuro’.” (METZ, Noroeste, 16 de novembro de 2001)

Tambo do Bando
O Tambo do Bando teve em sua estética musical a forma de pensar o Rio Grande do Sul e o mundo que Sérgio Jacaré escrevia nas letras, contos e livros. Abordava temas como dilemas da existência e reforma agrária, retratando o Rio Grande do Sul fora dos moldes tradicionais.

Em Um pombo larga o pago, faixa presente em O pago revisitado (CD de Santiago Neto), o poeta sul-rio-grandense citou Tolstoi, sintetizando a estética representada pelo grupo durante dez anos:
Um pombo larga o pago pra que ele volte vago/ Ambos alados, lado a lado, separados/ Se Tolstoi ao pensar nisso estava referindo uma biboca tal/ Certamente estava a frente, bem a frente de algo maternal/ Ao passar por linhas carreteiras a seguinte solução final:/ ‘Canta tua aldeia e serás universal, que a querência, por externa, nunca sai do coração’. (METZ; BRUM, 1997, LP, 10)

A dinamização das trocas culturais na pós-modernidade provocou reações diversas, como a retração em torno de tradições ou a hibridização das culturas. O Tambo do Bando enquadrava-se dentro de uma nova tendência na cultura mundial, a reação criativa latino-americana, frente ao mercado de bens culturais e às tradições.

Jacaré deixou o plano terreno há 13 anos. Talvez hoje esteja “fumando sobre o mapa”, parafraseando-o com uma de suas finas metáforas. Assiste de outra dimensão a fase terminal da neurose tradicionalista que tanto diagnosticou com ironia e para a qual receitou a arte adequada, indicada para atravessarmos a contemporaneidade vivendo uma cultura sul-rio-grandense híbrida, construída harmonicamente entre os lugares da identidade e da alteridade.

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Trechos adaptados do meu Trabalho de Conclusão de Curso na graduação em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, sob orientação do Dr. Tau Golin: “O tambo que rompeu o bando: a representação de uma nova estética musical regional na comunicação do Rio Grande do Sul” (Universidade de Passo Fundo - UPF, 2002).


Crédito das Fotos: Emilio Pedroso/ZH


Assista aqui a uma entrevista com o cantor e compositor Leandro Cachoeira, do Tambo do Bando.


Leia aqui um texto de Marcos Rolim sobre Jacaré.


Leia aqui o artigo “A maldição da memória”, de Janaína de Azevedo Baladão, sobre o livro Assim na Terra.


Ouça aqui a música “1996“, de Pedro Metz, em homenagem ao pai. Música integrante do disco “Como num filme sem um fim“, da banda Pública.

21.7.09

Novas ramilongas


Extra! Extra!
Compositor Vitor Ramil prepara novo disco de milongas.

Leia aqui a notícia no blog do carioca Mauro Ferreira.

4.6.09

Cachoeiras


Itiquira - Formosa (GO)




Indaiá - Formosa (GO)

3.6.09

una Barranca nueva que marca el compasso

A juventude consagrou-se na maior confraria gauchesca do Brasil. O Festival da Barranca, acampamento que reúne músicos e intelectuais nativistas na cidade de São Borja (RS) toda Semana Santa, chegou à 38ª edição com motivos-de-ser.

Eraci Rocha convida o filho Guilherme para guitarrear uma canção


Após a morte de seus pensadores-fundantes, Aparício Silva Rillo e Sérgio Jacaré, a união periódica poderia esgueirar-se nas curvas de um rio de maré forte sem tino. Mas fiquei muito feliz de perceber claramente nestes últimos dias de Páscoa, que houve a consagração do que há mais de dez anos se prenunciava como uma nova estética e um novo sentido para aqueles que confraternizam musicalmente naquela junção, e quiçá para a arte regional.

Falo de um grupo de músicos, guinados pelo peito aberto de Pirisca Grecco e seus comparsas de Uruguaiana, que aglutinam hoje mais e mais geniais jovens interessados nas coisas do sul. Desde o final da década de 1990, quando se emborrachavam e faziam lindos fiascos, já se percebia um quê inconseqüente que precisava de prumo para revolucionar a música gauchesca. Assisti no palco da Barranca performances inesquecíveis de Pirisca. Certa vez subiu defendendo uma composição na noite final, solitário, empunhando bombo-leguero e atirando para frente em todas as convenções de gaita e violão. Outra, interpretou com falsetes sua música mais romântica e sintética, Zambita Nueva, de guitarra y voz, para encantar novos fãs que começavam a torcer por ele nos festivais estado afora e comprar avidamente cada disco novo seu.

Na filosofia da Barranca, sempre encontrei solidariedade musical para que o inusitado e o surpreendente emergisse. Nunca foi um festival sórdido-competitivo, como a maior parte se revela. Mas toda a energia despendida nos dias de feriado sagrado há muito tornara-se uma chama impertinente, que perdia argumentos na insana força de manter-se acesa.

Ataualpa Dorneles seresteia em meio ao acampamento de jovens musicistas

Este ano de 2009 descortinou na minha percepção uma fogueira de nó-de-pinho. Com originalidade e bebendo de fontes ciganas, roqueiras, transcendentais, artistas como Ângelo Franco trazem uma inquietude muito pertinente aos novos tempos de necessária renovação estilística no nativismo sul-rio-grandense. Este cantor e compositor não por acaso trouxe de volta ao festival da Barranca um ícone da música gaúcha, o flautista Texo Cabral. Não só por ter composto o grupo antológico Tambo do Bando nas décadas de 1980 e 1990, mas por transitar entre o samba, o jazz e o regionalismo com desenvoltura que atravessou gerações, Texo reenfilera-se no front da revolução. Pois seu antigo grupo foi um marco na história da música gaúcha e parecia até então sonegado uma sucessão, ao contrário do que percebo agora nesta juventude.

Ângelo Franco traz ao lado o ícone Texo Cabral

Sou integrante assíduo desta confraria desde 1997 e mais jovem que os jovens que resenho aqui. Demorei a escrever este comentário (passaram quase dois meses da Páscoa), mas o faço agora com mais segurança, certo de que o calor que me corou a face naqueles dias à beira do Rio Uruguai não é a única razão de ser deste texto. Escrevo sim porque urge no Estado o reconhecimento e o engajamento nesta nueva onda.

"Quer dizer..."

30.5.09

Paranoá




Deck da Ermida Dom Bosco (Brasília DF)

29.5.09

Um intelectual mais ao sul


Juremir Machado da Silva é doutor da comunicação, professor, escritor, colunista do jornal Correio do Povo e agora pesquisador da história do Rio Grande do Sul. Este intelectual sempre chama atenção por sua elegância e fina ironia na argumentação. Sou leitor assíduo de seus textos periódicos e agora curioso pela publicação de suas pesquisas historiográficas, sobre temas como a batalha de Porongos, na Revolução Farroupilha.

A revista Aplauso publicou uma entrevista com Juremir, em sua nova edição. O jornalista Flávio Ilha explorou temáticas diversas que o intelectual domina, passando por internet, jornalismo opinativo e, claro, história do Rio Grande do Sul.


Um trecho da entrevista:


Flávio Ilha - Somos um povo esquizofrênico?

Juremir Machado da Silva - A verdade é que talvez nos falte dados concretos para acalmar a nossa ânsia de aprovação. Por exemplo: quem foram os grandes intelectuais brasileiros? Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Antônio Cândido e por aí afora. Agora responda: qual deles era gaúcho? Nenhum. Então, os nossos intelectuais nunca pensaram o Brasil de uma maneira que eles pudessem ser reconhecidos como intelectuais brasileiros. Então nós não temos isso. Nós não temos nenhum realmente grande intelectual que tenha pensado o Brasil.


Leia mais na página da revista Aplauso.

21.5.09

Brasília - tour

Há um mês residindo em Brasília, não havia feito nenhum tour pelos principais pontos, apesar de trabalhar na Esplanada dos Ministérios. Mas em um final de semana que passou, dediquei-me a um passeio pelas atrações "turísticas" da capital federal, registrei algumas cenas e as divido aqui.


Museu Nacional.


Congresso Nacional.


Catedral.


Orquestra de Brasília apresentando-se ao ar livre no Eixo Monumental.

18.5.09

O Raul



Os dez anos que morei em Passo Fundo (RS) legaram à minha formação pessoal e profissional preciosos vincos que hoje fazem parte do que sou. Dentre tantas referências e experiências, sejam familiares ou de amizade, destaco neste momento uma pessoa em especial que é o famoso Raul.

No início, chegando de Porto Alegre, achei que o tal do Raul era uma lenda. Todos os músicos da cidade falavam nele. Pensei ser um Deus, talvez. Logo entrei em contato, em terceiro grau, com o compositor e colecionador de discos tão admirado na urbe. Estávamos em 2003. Ele me enviava e-mails sobre músicos da região que faziam sucesso no centro do país e na Europa (como Alegre Corrêa e Dudu Trentin) e cópias de CDs à redação do jornal Diário da Manhã, no qual eu trabalhava e produzia o caderno DM Cultura. Aí veio minha segunda impressão sobre o sujeito: um ermitão. Como podia um músico não aparecer nos barzinhos pra dar uma canja, tomar uma cerveja e contar causos? Fiquei intrigado, neste início, como a maioria de seus amigos-fãs.

Raul é responsável pela comunicação e historiografia de uma geração de músicos que resolveu tocar MPB no interior do estado do Rio Grande do Sul, por idos dos anos 1970, na contramão do gauchismo e dos bailes populares que dominavam a cena na época e continuam fortes hoje. Diferente dos seus amigos que foram mundo afora serem músicos de profissão, Raul foi ser funcionário público. Mas nunca deixou a música. Sempre compôs suas canções e intermediou contatos da classe artística.

Confesso minha identificação com este cara por razões musicais e de carreira. Primeiro, seu gosto pela MPB, MPG e música instrumental são cativantes, ainda mais porque ele o divide com todos, fornecendo cópias de seus discos. Segundo, porque ele não é o exemplo de músico bem-sucedido que o jovem aspirante quer se espelhar. E eu não queria mesmo largar o jornalismo e abraçar exclusivamente a música. Queria ver alguém como o Raul, com uma carreira de vida brilhante: dois filhos, funcionário público exemplar e uma referência na música. Tudo feito no interior do estado do Rio Grande do Sul, através de contatos por correio, telefone ou e-mail, de dentro de uma casinha branca na Rua Benjamin Constant, com o cão Paco na soleira da porta.

Raul trouxe Viena para nós apreciarmos nos parcos palcos da cidade, quando dos shows de Alegre Corrêa na terra natal (a produção sempre foi do Osvaldir, mas a culpa é do Raul). Ele aproximou pianistas, bateristas, baixistas e guitarristas de referências brasileiras, incentivando a formação de grupos instrumentais. Preocupou-se com todos, enquanto todos tentavam entender o porquê dele não tocar em público e não gravar um disco com suas composições.

O CD
Chegou 2008 e a novidade alastrou-se nos contatos virtuais e nas mesas dos botecos da Passo Fundo de hoje. “Raul está gravando seu disco no Rio de Janeiro, com a produção de Dudu Trentin”. Foi uma bomba no meio cultural. Mas restavam indagações: será que ele largou o serviço público? Será que vai fazer um show de lançamento? Vai me convidar pra tocar com ele? Um alvoroço se criou. E o “velho” Raul (velho pelas atitudes bem medidas) explicou à gleba sua façanha, sem atender às ligeiras expectativas, mas apaziguando os ânimos e convencendo sobre a motivação de seu projeto. Raul gravou para posteridade, ou melhor, para a prosperidade, do seu trabalho e da música brasileira. Em tempos de cabelos descoloridos artificialmente, o passo-fundense coloca em cena seu cabelo grisalho, descolorido pela vivência apaixonada de audição e criação. O seu disco é o resultado de uma vida, não de uma experiência tóxico-etílica de um mês em um sítio alugado por uma gravadora, como se vê por aí.

Não vou nem comentar as lindas faixas impressas nesta mídia fadada ao desaparecimento que é o CD, mas disponíveis no revolucionário My Space. Vou sim comentar que o vinil, principal fonte de conhecimento do nosso amigo compositor, está voltando. Também irei concluir que o Raul Boeira hoje está casado com a Márcia Barbosa, doutora das letras e dona de um coração grande que acolhe toda a MPB, zelando pelos conterrâneos gêmeos, em um êxtase que a vida só experimenta através da arte.

Pra compartilhar desta cousa toda que nos faz felizes: www.myspace.com/raulboeira

20.4.09

Rio Uruguai - São Borja RS




Fotos clicadas durante o 38º Festival da Barranca, na Semana Santa.

8.4.09

Brasília


Santuário Dom Bosco.

3.4.09

Porto Xavier RS



17.3.09

Semilla! sem crise...


O país estava em crise. Era 2001. Era uma crise econômica forte. Na Argentina. Lembram?

Eram jovens ligados à música. Ligados ao rock. Ao folclore. Vocês não os conhecem...

(Já ouvi dizer que são os tempos críticos que inflam as mais opulentes surpresas)

Nasceu então a banda Semilla. Aqui a apresento a vós, brasileños tontos del sur, como eu. Como que ainda não temos intimidade com este tipo de som? Um zumbido que é a nossa cara!

Deixemos de tonterías e vamos ouví-los. Estão no My Space e na página oficial. O primeiro disco foi lançado pela Universal. Cliquem aí!

More folk & roll
Após esta propaganda introdutória, vamos à persuasão mais profunda, com argumentos irresistíveis, racionais e emocionais.

Conheci esta banda através de uma reportagem que li em Cosquín (ARG), na revista Sin Estribos. Falava, entre outras, de uma característica genial: “a Semilla provoca confusão nos vendedores, pois não se sabe em qual sessão expor o seu disco”. Este foi o único argumento que me fez ir até uma loja argentina e pedir o álbum, estivesse ao lado de CDs de rock, ou folclore. Guardei na mala e trouxe a iguaria para o Brasil.

Ouvindo-a, custei a notar que havia canções belas no meio daquela confusão estética que a Semilla propõe. Neste caso, o que confunde é o que provoca, é o que instiga, o que faz diferença. E eu estava ávido por estas sensações.

É rock. É zamba. É chacarera. É música de inventividade e emoção latentes.
Suas interpretações, como músicos, são simples. Sobressai-se apenas o tecladista, com pianos melódicos e hammonds virtuosos. O suficiente para acentuar cada letra em lugares estranhos e empolgantes.

A faixa Lucecita é encantadora. Deixem-se levar na dança de uma zamba singela.

Vamos, señores y señoritas! Abram seus corações para a diversidade estética! Não deixem o folclore separado do rock. Não deixem os velhos separados dos jovens. Vamos todos juntos! A la música del tercer milenio! Linda!

11.3.09

Veleta

Esta veleta no alto de uma casa chamou minha atenção. Cliquei lá em Cosquín (ARG).
Ao invés de galo,um cavaleiro e uma matilha.

10.3.09

Leia aqui a entrevista publicada no O Nacional

Abaixo, segue a entrevista que concedi à repórter Marina Campos em Passo Fundo.


Aqui, Cosquín! 
28.2.2009

Considerado o maior e mais importantes festival de folclore da América Latina, o Festival de Cosquín acontece no interior da Argentina e reúne espectadores de todo o planeta, entre eles o passo-fundense João Vicente Ribas, que presenciou a grande festa e agora conta todos os detalhes ao Segundo, desde a viagem a Cosquín até as impressões que ficaram após o fim do evento.

Em mais uma de suas aventuras em busca da essência da cultura gaúcha, o jornalista e mestre em História João Vicente Ribas partiu há pouco menos de um mês em uma aventura latino-americana com a missão de "desbravar o território argentino e buscar indícios sobre o ethos gaúcho das gentes que participam do 49º Festival Nacional de Folclore de Cosquín". De volta a Passo Fundo, João Vicente traz na bagagem não só as respostas para algumas de suas perguntas, mas também a mágica experiência de fazer parte do maior festival de folclore do continente, registrando a viagem em grandes fotos e relatos em forma de diário, que podem ser conferidos em seu blog, www.pampurbana.blogspot.com. Em entrevista ao Segundo, Ribas fala sobre sua aventura pessoal e também sobre a importância do evento para as tradições do sul da América.


Segundo - O que você sabia sobre o Festival de Cosquín antes da viagem? O que te motivou a ir à edição deste ano?
João Vicente Ribas - Antes de chegar à Argentina, no dia 23 de janeiro, sabia que havia naquele país alguns festivais musicais dedicados a raízes culturais que muito me chamam a atenção, por referirem-se esteticamente a ritmos e concepções gauchescas, similares às que celebramos no Rio Grande do Sul. Fomos em um grupo de oito pessoas, oriundas de Passo Fundo, Santa Maria, Porto Alegre e Camboriú. O que tínhamos afim era o gosto e o conhecimento musical sobre a canção latino-americana, além de algumas amizades. Um dos companheiros de viagem, Juares de Paula Motta, foi o responsável pela escolha do destino, pela convocação da parceria e organização da excursão.

Segundo - Diferente da maioria dos roteiros argentinos, que levam a Buenos Aires, você foi para o interior da província de Córdoba. Como foi essa viagem?
JR - Pesquisei antes de chegar à Argentina, buscando inteirar-me sobre o Festival Nacional de Folclore de Cosquín, motivo da viagem. Mas não sabia nada sobre o local em que ficaríamos instalados. Nosso roteiro não foi comprado como um pacote em uma agência de turismo. Decidimos o destino, a data e a atração principal, alugamos uma casa a 6 quilômetros do festival, e fomos. Chegando lá, descobri que a casa ficava à beira de um rio, no município de Bialet Massé. É um lugar de belezas naturais, com estrutura urbana precária, se comparado a destinos de veraneio brasileiros. Mas o contato estreito com a vida argentina, fora dos roteiros turísticos, compensa qualquer falta de conforto.

Segundo - O festival é considerado o mais importante encontro de folclore da América Latina. O que você encontrou por lá?
JR - O Festival Nacional de Folclore de Cosquín terá sua 50ª edição em 2010. Nas décadas de 1960 e 70, foi palco de projeção para grandes nomes como Atahualpa Yupanqui, Jorge Cafruni e Mercedes Sosa, ícones da música argentina e latino-americana. Na época, era um lugar para contestação política e criação da identidade nacional, durante o forte regime ditatorial. Os músicos reuniam-se até a madrugada na Confeteria Europea, trocando informações e desenvolvendo a cultura daquele país. Hoje, obviamente, o festival assumiu as características de um novo tempo, em que o palco é dotado de superprodução de som e luz, dando conta inclusive da transmissão ao vivo pela televisão pública para todo o país. Os encontros paralelos ao palco principal (peñas) continuam, mas são shows em bares, onde o público paga ingresso e pode dançar noite adentro. Uma característica que se mantém, e é saudada pela imprensa local, está na presença dos chamados músicos callejeros, artistas que afluem até Cosquín durante os dez dias de evento para se apresentar nas ruas da cidade, angariando contribuições espontâneas e transformando o lugar em uma colônia musical 24 horas, em todas as suas esquinas.

Segundo - Como define a experiência de presenciar um festival desse porte?
JR - Já havia assistido a shows em festivais nativistas no Rio Grande do Sul, rodeios e o festival de folclore de Passo Fundo. Esses eram o meu referencial comparativo, que permitiu certa surpresa em muitos pontos e `conhecimento de causa` em outros. Fiquei perplexo com a quantidade e qualidade de grupos híbridos, de projeção folclórica, que tocam música contemporânea de vanguarda. Essa é uma diferença gritante entre o gauchismo argentino e o brasileiro. Enquanto nós tentamos desesperadamente manter intacto o que dizemos ser nossas raízes, sem interferência moderna, os hermanos fazem justamente o contrário. E o resultado é muito `saudável`, pois mantém o interesse e o envolvimento ativo das gerações na constante criação da cultura nacional.

Segundo - Qual a importância do evento para os povos sul-americanos? O que muda na sua visão a respeito desse assunto ao retornar a Passo Fundo?
JR - A grande importância que percebi no Festival de Cosquín está no entendimento e o uso que os argentinos fazem do folclore. Para eles, a projeção folclórica, o tradicional e a música pop ocupam harmonicamente o mesmo palco. Não há purismos em um espaço em que um dos objetivos evidentes é a busca da identidade nacional. É exaustivo o discurso dos apresentadores em prol das tintas que significam seu país. O bonito é ver que essas tintas são tradicionais, são vanguardistas e são jovens também. Artistas como Chango Spasiuk, Trio MJC, Soledad, Rally Barrionuevo, Joel Tortul, Fulanas Trio, entre outros, provam que a música folclórica passa de geração para geração, de forma que cada uma delas interfere e interpreta valores comuns, de maneira particular. O resultado é surpreendente e atrai milhares de pessoas de todas as idades. Outra contribuição importante do festival é ser um ambiente totalmente musical. As pessoas vão a Cosquín para ouvir música! Convenhamos, esse fato é raro nos dias de hoje, ao menos no Brasil, em que o público vai a shows de música com estranhos objetivos, tais como cantar o sucesso das rádios, ver de perto um artista de televisão, ser fotografado ao lado do ídolo, socializar-se na plateia, dançar, ou ser notado como pessoa culta e apreciadora de música. A maioria das pessoas não quer ouvir música, por mais estranho que isso possa parecer. Já, nesse festival, percebi que o interesse pela simples audição ainda existe, mesmo que em algum lugar remoto do planeta.

Acesse esta matéria na versão on line do jornal O Nacional (clique aqui).

28.2.09

Cosquín em jornal de Passo Fundo

Foi publicada hoje uma entrevista que concedi à repórter Marina Campos, do jornal diário O Nacional de Passo Fundo. Leia a matéria no site do O Nacional, na editoria de cultura (Segundo).